
A questão da homossexualidade não é nova mas foi principalmente na última década que se verificou um crescente interesse no seu estudo e análise. E não é por acaso que isso acontece, nas sociedades ocidentais - e falamos apenas delas - neste dado momento concreto. O emergir da discussão sobre os direitos individuais e o maior respeito pelas determinações e orientações de cada um, a introdução da questão "HIV", bem como os dados científicos baseados na evidência, permitem debater este assunto com maior lucidez, objectividade e sem tantos preconceitos como os que, nas sociedades ditas "ocidentais", impediram durante muito tempo uma leitura imparcial e rigorosa da questão.
HOMOSSEXUALIDADE NA ADOLESCÊNCIA
Vivemos numa sociedade homofóbica que discrimina com violência a homossexualidade, fazendo com que homossexuais se exponham a riscos para a saúde por medo de terem a sua orientação sexual revelada. A adolescência é um momento de grande intensificação das manifestações sexuais, fase em que o jovem passa a ter uma nova imagem corporal e posição sexual. Para isso, pode buscar o caminho tanto da homossexualidade como da heterossexualidade. A partir de conhecimentos oriundos da psicanálise, antropologia e pesquisas médicas, o artigo se propõe a contribuir com os profissionais de saúde que atendem adolescentes, oferecendo-lhes distintas informações acerca da homossexualidade para que proporcionem aos seus clientes um atendimento ético, sem discriminação, auxiliando-os a se tornarem aptos a enfrentar seus impasses.
Comportamento sexual
O comportamento dos adolescentes homossexuais é tão variado quanto dos heterossexuais. A inversão sexual pode irromper na infância, adolescência ou na idade adulta, durar toda a vida, desaparecer temporariamente, aparecer após um longo tempo de actividade sexual heterossexual, etc.
Homens e mulheres homossexuais são tão diferentes entre si como todos os demais seres humanos.
A definição de masculino e feminino, do ponto de vista psíquico e sociológico, é extremamente complexa. Todo ser humano apresenta uma mistura de caracteres biológicos, psíquicos, masculinos e femininos. Apenas uma minoria de homens e mulheres homossexuais tem trejeitos caricatos do sexo oposto ao seu. A maioria dos gays e lésbicas não se manifesta de modo estereotipado, o que lhes permite manter sua orientação sexual velada. Alguns heterossexuais relatam que tiveram atracão sexual por pessoas do mesmo sexo em alguma época da vida, mas não se tornaram homossexuais. Outras pessoas têm relacionamentos homossexuais ocasionais (Heilborn, 1996).
Podemos encontrar adolescentes homossexuais que nunca tiveram experiência sexual. Outros já tiveram experiência apenas heterossexual ou homossexual. Existem aqueles que experimentaram relacionamentos tanto homo como heterossexuais.
Riscos e transtornos médicos e psicossociais
Em função da inquietação e discriminação existentes na sociedade em torno da prática homossexual, vide a homofobia, o adolescente, temendo ser rejeitado, muitas vezes esconde sua condição e se isola, colocando sua saúde em risco.
Depressão e comportamento suicida são mais frequentes entre homossexuais do que entre os heterossexuais .Outros transtornos comuns são: isolamento social e emocional, evasão escolar, uso de álcool e drogas, transtornos alimentares, conflitos familiares, fuga de casa, prostituição, delinquência e violência.
A relação homossexual masculina genital anal é traumática e isso aumenta a probabilidade de doenças sexualmente transmissíveis. O índice de HIV/SIDA é maior entre gays do que na população geral e, entre as lésbicas, é menor. A homossexualidade feminina é menos diagnosticada em atendimento médico e menos visível socialmente. As relações sexuais entre mulheres em geral não são traumáticas e não aumentam o risco de doenças sexualmente transmissíveis. Neste caso, mais frequentemente ocorrem transtornos psicossociais como isolamento, depressão, tentativas de suicídio, rejeição da família, dificuldades escolares, etc.
Atenção à saúde
Um adolescente raramente busca atendimento médico em razão de sua homossexualidade. Às vezes a família a descobre e o traz à consulta, à sua revelia e querem ajuda médica para tentar mudar a orientação sexual.
Os profissionais de saúde devem estar atentos, ao atender adolescentes, às dificuldades mais comuns que estes podem apresentar na área da sexualidade, já que a adolescência é a etapa da vida em que as manifestações sexuais se intensificam e a identidade sexual se reafirma. Às vezes, numa primeira consulta, os adolescentes não conseguem se abrir e fazer confidências, mas é importante que eles percebam que há espaço para tal.
Os problemas médicos principais do adolescente homossexual masculino são as doenças sexualmente transmissíveis, os traumas do coito e os problemas psicossociais relacionados aos desajustes da identidade homossexual como a depressão, isolamento social, baixa auto-estima, abuso de drogas. Recomenda-se um exame físico cuidadoso da região genital, anal, pele, gânglios, garganta. O estado de imunização também deve ser averiguado.
O adolescente e sua família precisam ser acolhidos em suas dúvidas. A empatia e a busca da maior neutralidade possível em seu atendimento viabilizam que ele fale sobre suas questões sexuais. Espera-se com esta abordagem auxiliá-lo a ser sujeito de seus próprios desejos, ao invés de mero objecto, joguete dos desejos e roteiros sexuais alheios e que se proteja dos riscos inerentes à sua prática sexual .Informações sobre a homossexualidade e o carácter não patológico da mesma podem ser benéficas. Aos adolescentes homossexuais que se rebelam contra a sua orientação sexual, pode-se indicar um tratamento psíquico.
O mundo está (felizmente) a mudar
Com o evoluir das sociedades, quando hoje em dia não ter filhos já não lança ninguém no opróbrio, quando as liberdades, direitos e garantias individuais são promovidas e não apenas as da comunidade como um todo, a questão da homossexualidade, tal como muitas outras, tornou-se objecto de debate e de discussão. E se, por um lado, ainda se observam frequentemente atitudes segregacionistas e de exclusão (algumas vezes de auto-exclusão), é crescente a tolerância e mesmo a normalidade com que o assunto é felizmente encarado. Para isso tem contribuído a afirmação pública de pessoas e individualidades de várias áreas da ciência e da cultura relativamente ao facto de serem homossexuais. Há uns anos não se admitiria que, por exemplo, um ministro de um governo fosse assumidamente "gay", o admitisse publicamente e continuasse a ser ministro. Hoje já o é, em alguns países.
A homossexualidade não é uma questão de escolha
Cada vez mais se entende que a homossexualidade, como uma das possíveis orientações sexuais, não é uma questão de escolha, ou seja, não se escolhe ser homo, hetero ou bissexual. É-se, apenas e tão só, embora permaneçam desconhecidos os determinantes dessa orientação. O que já pertence ao capítulo das opções pessoais é a forma de comportamento e os estilos de vida que as pessoas, homossexuais (ou não) adoptam, designadamente o tipo de experimentação sexual e o viver (ou não) uma vida com relações homossexuais assumidas. Por outro lado, é bom que fique claro que as experiências homossexuais, masculinas e femininas, durante a adolescência, não são, para a larga maioria dos jovens, um factor predictivo da sua orientação futura.
No que se refere à prevalência desta situação, embora alguns relatórios tenham indicado estimativas, em adultos, de cerca de 4% para os homens e 2% para as mulheres, desconhece-se a taxa na adolescência e estas prevalências variam enormemente de região para região e de comunidade para comunidade, muito dependente do grau de aceitação social e até político.
As mesmas necessidades e padrões de desenvolvimento
Os adolescentes homossexuais partilham os mesmos padrões de desenvolvimento dos seus congéneres heterossexuais, designadamente o estabelecimento de uma identidade sexual, a decisão sobre os comportamentos, a gestão dos afectos, as opções relativas a ter ou não relações, de que tipo e protegidas ou não, etc. Os riscos que correm, relativamente às doenças de transmissão sexual, como a infecção a HIV ou outras, exigem as mesmas estratégias de educação para a saúde. Assim, os cuidados antecipatórios que se debatem com qualquer adolescente não devem excluir nenhum, independentemente das suas opções e orientações que, como se afirmou, podem até não querer dizer coisa nenhuma em relação ao futuro. Por outro lado, e como já referimos, sendo uma minoria na sociedade os homossexuais estão sujeitos a uma pressão social e a um "empurramento para a clandestinidade" que pode trazer um menor acesso aos serviços, um maior desconhecimento da informação credível e de rigor e, também, um aumento dos problemas psicológicos e sociais, numa adolescência já pontuada por dúvidas, angústias e "duelos" entre modelos de vida, de comportamentos, de relações e de concepções de sociedade.
Problemas a vários níveis…
Os problemas psicossociais derivam fundamentalmente do fenómeno de exclusão, vergonha (é preciso ver que ainda vivemos em sociedades onde os conceitos religiosos, mesmo nos não praticantes e não crentes, tem um peso extraordinário em pequenas coisas do dia-a-dia, mesmo que já não nas grandes decisões e opções), estigmatização social, hostilidade, etc. Aliás, não é por acaso que o risco de suicídio é muito superior para os adolescentes homossexuais, mesmo descontando outros factores do contexto social que possam também ser geradores de situações depressivas.
Muitas vezes, o comportamento exibicionista, associado a uma vontade de afirmar que "também se faz parte da sociedade", afasta e segrega mais as pessoas - mas é paralelo e "tão sem graça" como o comportamento exibicionista de um par heterossexual.
É fundamental, assim, ter uma atitude de instilar segurança à medida que os adolescentes formam a sua identidade sexual, sem rotulações precoces e imediatistas. Há uma evolução no processo de orientação sexual e, tal como para os adolescentes heterossexuais, não podemos confundir relações sexuais com sexualidade. A questão dos afectos é fundamental, dado que a expressão desses mesmos afectos é socialmente mal vista e pode limitar os impulsos amorosos que, se fosse o caso de um par heterossexual, até poderia ser motivo para uma fotografia ou um cartaz socialmente e esteticamente (e politicamente) "correcto".
Como definir "homossexualidade"?
Cada um de nós temos a nossa própria definição do que é a homossexualidade, se é apenas dizer que uma pessoa do mesmo sexo é bonita ou interessante, ou assumir publicamente a sua preferência por um companheiro do mesmo género.
Em todo o caso, pode-se designar homossexualidade como a atracção sexual, emocional e afectiva de pessoas de um género por pessoas do mesmo género, como parte de um continuum da expressão sexual. Muitos adolescentes têm relações homossexuais como parte da sua aprendizagem, experimentação e conhecimento do corpo. Por outro lado, muitos dos homens e mulheres homossexuais tiveram as suas primeiras experiências durante a adolescência, tendo sido no final desta que as suas determinações e opções se consolidaram.
Desenvolvimento da identidade homossexual
Durante a adolescência passamos a ter um objecto sexual, que mais comum entre alguém do sexo oposto. Porém, podem acontecer manifestações sexuais entre pessoas do mesmo sexo que estão se descobrindo, experimentando o que é ser homem ou ser mulher. São as raparigas que convivem com suas amigas intimamente, trocam confidências, carinhos e os rapazes que buscam parceiros para brincadeiras e vivências. É uma fase de experimentação sexual que contribui na construção da identidade sexual futura.
Os relacionamentos entre homossexuais nos adolescentes já foram mais frequentes do que são nos dias de hoje. Na Idade Média era comum a relação sexual entre um adolescente e um homem mais velho. Antes de inventarem a pílula anticoncepcional e da “revolução sexual”, época de mudança dos costumes na qual a mulher passou a ter mais liberdade sexual, era comum o chamado “troca-troca” entre os adolescentes do sexo masculino. Na geração actual isso já não acontece, pois os adolescentes já podem ter relações sexuais com suas namoradas e amigas, nesta fase de experimentação sexual.
Aqueles que sentem atracão por alguém do mesmo sexo inicialmente sentem-se diferentes, sem sabem o porquê. A consciência do desejo sexual acontece progressivamente. Em alguns casos ela dá-se desde a infância. Geralmente os homossexuais descobrem sua inclinação sexual no início da adolescência, têm fantasias homoeróticas, passam a ter experiências sexuais e assumem a sua homossexualidade no início da vida adulta. O intervalo de tempo entre descobrir-se homossexual e revelar-se pode ser longo. A maioria dos adolescentes tende a se manifestar quando já se considera independente e sente-se mais seguro em relação à sua orientação sexual. Alguns não se revelam nunca.
É difícil para um adolescente assumir sua homossexualidade devido à rejeição e à discriminação existentes na sociedade. Por isso, muitos homossexuais não se expõem e se isolam, pois não têm coragem de contar nem de compartilhar com alguém este sofrimento, tentando se defender da homofobia presente na sociedade. A homofobia, definida por atitudes irracionais contra homossexuais, é responsável por altos índices de violência contra estes
http://setimodia.wordpress.com/2009/06/26/homossexualidade-um-gay-nasce-gay/Z


